"Escrevo como posso e não como quero"

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Margarida Rebelo Pinto

Escritora

Nasceu em Lisboa, em 1965

Após licenciar-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Clássica inicia uma breve carreira no jornalismo. Publica Sei Lá em Março de 1999, o primeiro grande sucesso de dez livros

A contabilidade indica um número de livros vendidos por Margarida Rebelo Pinto que se aproxima dos 800 mil exemplares. Uma quantidade raramente atingida por autoras (e homens, também!) em Portugal e um facto que irrita muitos dos seus críticos. Por isso, entrevistá-la é um risco... mas vale a pena querer saber o que vai dentro da cabeça e do coração de uma mulher que aos 40 anos já realizou quase todos os seus sonhos de adolescente.

"Escrevo como posso e não como quero"

Ainda escreve o que quer?

Eu vou sempre escrever o que me apetece e aquilo que consigo fazer no momento. Até porque só consigo escrever coisas que sinta ou vivencie de uma forma tão próxima que as possa relatar. Jamais conseguiria escrever sobre Robinson Crusoe ou um livro de ficção científica, a minha imaginação é a minha realidade e vice-versa. Escrevo como posso e não como quero, mas sou muito cuidadosa com o que quero apresentar em cada livro, o que não quer dizer que o conteúdo não seja espontâneo e sincero.

O último livro é uma carta de amor?

Há dois livros na minha vida que são referências fortíssimas e que são cartas de amor. Um é Alexis, de Marguerite Yourcenar, e o outro é De Profundis, do Oscar Wilde, que versam ambos a temática de um amor impossível. Eu fechei o Não Há Coincidências com uma carta de amor que era um ajuste de contas e percebi que essa carta tinha tido um efeito muito forte nos meus leitores. Isso alimentou a paixão de escrever uma carta e comecei a fazê-lo enquanto Margarida pessoa e não escritora, mas ao chegar à página 6 decidi aproveitar a boleia do momento que estava a viver e universalizar o conteúdo. Era importante dizer o que sentia e via o amor numa visão completamente feminina.

O livro é escrito na primeira pessoa...

As primeiras páginas são autobiográficas mas a partir daí resulta de conversas com mulheres que passaram situações de abandono, traição e outros quadros de desilusão amorosa para perceber como é que lidavam com isso. Depois, fui escrevendo enquanto redigia o Pessoas Como Nós porque havia dias em que queria escrever um e dias em que era o outro. Se não tivesse conseguido escrever este não teria feito o outro.

Há um grande lado confessional!

É a crise dos 40. Como diz o Michael Cunningham - quando o mundo começa a encolher à nossa volta e percebemos que estamos a meio da nossa vida - sobre esta fase, a melhor, porque aquilo que sou é quase tudo o que gostaria de ser. Estava numa fase de grande solidão quando escrevi os livros, emocional e a inerente à profissão. Tenho saudades do burburinho de uma redacção, de ter uma existência com mais interacção e de uma vida mais agitada.

Os homens é que são o problema no livro Diário da Tua Ausência?

As mulheres e os homens estão muito desencontrados. Há uma nova mulher ainda não completamente assimilada pelas mulheres, o que faz com que elas tenham comportamentos ambivalentes e contraditórios, e que é difícil ser entendida pelos homens. Há uma nova mulher que há 40 anos começou a dizer aos homens que não precisava deles e que hoje, nas gerações mais novas, os homens dizem o mesmo e parece que só resta sermos todos adolescentes até aos 50. A questão está na evolução muito rápida dos valores e dos estatutos que provocou desorientação no entendimento entre ambos os sexos, o padrão clássico está completamente desarrumado. Creio, no entanto, que há uma resistência no ADN que nos pede para regressar à família estruturada porque é a base do bom funcionamento de qualquer sociedade.

Mas as mulheres também não sabem como ter o amor dos homens?

As mulheres continuam a querer o mesmo, mas de modo diferente, provavelmente mais tarde, mas muitas consideram inadmissíveis certas atitudes que em gerações anteriores eram sublimadas ou escondidas. Se há boas aquisições, uma é que já não se faz tudo para salvar aparências.

Vai voltar a escrever sobre o tema?

As relações humanas são a minha maior paixão e vou escrever sempre sobre elas. É o meu elemento e não vejo as coisas de forma pessimista, faço parte de uma geração que cresceu com padrões de um mundo que já não existe. Fui a última geração a ser educada com medo, mas o meu filho não tem o mesmo que eu tinha dos meus pais, as conversas são cruzadas e as crianças partilham as dos adultos. Há é um certo embaraço na escolha de modelos de vida.

Foi muito criticada recentemente...

Eu não tenho espírito para polémicas. A providência cautelar foi posta por vontade do editor, com o meu acordo e solidariedade, e já estava à espera do resultado do tribunal. A providência serve para acautelar um dano, mas o livro foi para o mercado apesar de nem eu nem muitas pessoas considermos aquilo um trabalho de crítica literária. Sempre aceitei as críticas, mas não os insultos ou que alguém tente ganhar dinheiro à conta do meu nome.

Acha que perdeu com a polémica?

Perdi um bocado de paciência para os arrivistas. Não foi agradável nem fácil, mas estes fait-divers fazem parte da vida em Portugal, porque as pessoas têm comportamentos muito umbiguistas. Foram 50 anos...

Como está a correr a internacionalização dos seus livros?

Está a correr bem, no Brasil tenho três publicados e a editora quer imprimir os que faltam, até as crónicas. Na Holanda, também já vou no terceiro e na Alemanha o segundo correu bem.

Quando surgiu o seu trabalho foi rotulado como literatura light...

O light nunca foi bem definido por ninguém, além de que considero que escrevo pop. Quando apareci o mercado livreiro era o oposto do actual, emperrado e agonizante, no entretanto o livro mudou de estatuto na vida das pessoas, passou a ser um bem quase de primeira necessidade. O problema é que a seguir a mim todos começaram a escrever - há 15 anos as mulheres queriam ser decoradoras, e há 30 hospedeiras - e isso subverteu o mercado. Assistimos a esse fenómeno de multiplicação de margaridos e margaridinhas, mas o que vai ficar é completamente diferente. Foi importante para os leitores ter acesso a coisas diferentes, mas perverso para o mercado literário, que passou de um extremo - só o que é hermético era bom - para um tratamento excessivamente comercial do livro. As pessoas acham que escrever livros é uma coisa muito fácil, mas há jeito, talento e génio.

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